O setor automotivo brasileiro vive um descompasso entre o avanço dos custos de produção e o preço final dos veículos, de acordo com dados de entidades da indústria divulgados em 30 de janeiro. Insumos mais caros, falhas logísticas e juros elevados são apontados como parte do problema, mas fatores estruturais e decisões comerciais das próprias montadoras também ajudam a sustentar valores elevados nas concessionárias.
Cadeia de suprimentos pesa no custo final
Levantamento do portal Gitnux mostra que mais de 80% do custo total de um automóvel está relacionado à cadeia de suprimentos — peças, componentes e logística. O mesmo estudo indica que 60% dos fornecedores globais do setor tiveram interrupções recentes em suas operações, refletindo diretamente na produção.
A crise mundial de semicondutores, analisada pela consultoria Jusda Global, exemplifica esse cenário: a escassez desses componentes levou montadoras a diminuir o ritmo de montagem e a priorizar carros de maior margem, reduzindo a disponibilidade de modelos de entrada.
Estrategicamente, foco em veículos mais caros
Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), mesmo em fases de retomada produtiva, os preços ao consumidor permaneceram altos. O motivo passa pela decisão das empresas de concentrar o mix de vendas em SUVs e versões mais completas, tendência que reduziu a oferta de modelos populares.
Entre as consequências desse movimento, a Anfavea lista: menor concorrência em faixas de entrada, aumento do tíquete médio e preservação da rentabilidade das fabricantes.
Repasse rápido de custos e mercado concentrado
Análises da Associação Comercial de São Paulo indicam que a indústria repassa praticamente de forma integral e rápida seus aumentos de custos ao consumidor. A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) destaca que poucas marcas concentram a maior parte dos emplacamentos, o que reduz o poder de barganha do comprador.
Logística e juros pressionam valores
Estudos da Jusda Global apontam fretes caros, gargalos portuários e infraestrutura limitada como fatores que mantêm altos os gastos logísticos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula que esses custos podem chegar a 12% do valor de produtos industriais no Brasil, percentual superior ao de países desenvolvidos.
No crédito, os dados mais recentes da Anfavea mostram que o financiamento de veículos atingiu custos históricos, enfraquecendo o acesso ao carro zero-quilômetro.
Tecnologia embarcada usada como justificativa
Recursos como conectividade e assistentes de condução ajudam a explicar parte da alta nos preços, mas o Ipea aponta que, em vários casos, o acréscimo se relaciona mais à estratégia de valorização do produto do que ao custo real desses itens, cujo preço diminui com ganhos de escala. Campanhas de marketing reforçam essa percepção junto ao público.
Mercado de usados ganha espaço
Com menos opções acessíveis entre os novos, o consumidor volta-se ao seminovo. A Fenabrave registra volume de vendas de usados muito superior ao de zero-quilômetro. Entretanto, a menor renovação da frota reduz a oferta de modelos recentes, pressionando também os preços nesse segmento.
Entidades como Anfavea, Fenabrave e Ipea concluem que a soma de custos produtivos, decisões estratégicas, repasse de preços e estrutura de mercado explica a manutenção de veículos novos em patamar elevado, enquanto o carro usado segue como alternativa para grande parte dos brasileiros.
Com informações de Motor1

