A indústria automotiva alemã enfrenta um forte movimento de evasão de investimentos. Levantamento da Associação da Indústria Automotiva Alemã (VDA), realizado no início de 2026 com 124 empresas, mostra que 72% dos pequenos e médios fornecedores pretendem diminuir sua presença industrial no país.
Planos das empresas
Segundo a pesquisa, o destino dos recursos programados mudou de rumo:
• 28% estão transferindo investimentos já existentes ou planejados para outras nações;
• 25% suspenderam aportes por tempo indeterminado;
• 19% cancelaram projetos domésticos;
• Apenas 1% planeja ampliar investimentos na Alemanha.
Isso indica que, no curto e médio prazos, quase nenhum fornecedor considera o território alemão prioritário para novos aportes.
Três obstáculos principais
A presidente da VDA, Hildegard Müller, aponta fatores estruturais para a perda de competitividade:
Energia cara – Mesmo com acordo governamental para subsidiar tarifas entre 2026 e 2028, os custos seguem entre os mais altos do mundo. A transição energética (Energiewende) elevou despesas após o desligamento de usinas nucleares e a redução do uso de carvão, sem que a oferta de fontes renováveis acompanhasse a demanda industrial.
Burocracia e regulação – Para 90% das companhias ouvidas, normas europeias sobre cadeia de suprimentos, metas climáticas rígidas e incertezas sobre a venda de veículos a combustão a partir de 2035 criam um ambiente de negócios restritivo.
Tarifas nos Estados Unidos – Impostos de 15% a 25% aplicados pela administração Trump sobre veículos da União Europeia estimulam a produção direta no mercado norte-americano.
Empregos em risco
Metade das empresas já corta postos de trabalho dentro do país. Estudo do Instituto de Economia Mundial (IfW Kiel) estima a eliminação de até 78 mil vagas – cerca de 10% da força de trabalho automotiva alemã – até o fim de 2027, com transferências para América do Norte e Ásia.
Ajustes dos grandes grupos
Volkswagen discute fabricar modelos Audi Q4 e-tron, Q6 e-tron e Q8 e-tron nos Estados Unidos, utilizando a planta de Chattanooga (Tennessee) ou a futura unidade da Scout Motors na Carolina do Sul. A mudança pode incluir o Audi Q5, hoje montado no México.
BMW ampliará turnos e capacidade da fábrica de Spartanburg, na Carolina do Sul, para abastecer a demanda local de SUVs como X5 e X7.
Mercedes-Benz confirmou que o SUV GLC passará a ser montado em Tuscaloosa, Alabama, a partir do fim de 2027; atualmente, o modelo sai das linhas alemãs de Bremen e Sindelfingen.
Paralelamente, as três marcas reforçam a estratégia “na China, para a China”, favorecendo menor custo e cadeia de baterias mais desenvolvida.
Produção interna já encolhe
Depois de encerrar modelos icônicos como Fiesta e Focus, a Ford mantém na Alemanha apenas a produção dos elétricos Explorer EV e Capri EV, ambos com vendas abaixo do previsto. Veículos comerciais e de maior volume migraram para Turquia e Romênia.
A produção automobilística alemã, que se recuperou para cerca de 4,1 milhões de unidades anuais após a pandemia e colocou o país como o segundo maior fabricante de carros elétricos do mundo, atrás da China, agora convive com o risco de um “esvaziamento” industrial progressivo.
Com informações de Motor1

